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Artigo do leitor: O defunto fede

 O defunto fede

Honório de Tia Dica tinha acabado de bater as botas. Literalmente estava morto. O cabra depois de comer uma buchada resolveu ir tomar banho no açude que fica nas terras de Zé de Ló. Ele não deixou nem a comida assentar no bucho, caiu nas águas e dizem que depois de dar umas braçadas viram seu corpo descer nas águas barrentas e não retornar. Sua mãe disse que deu congestão.

Levaram poucas horas para encontrar o corpo. Chicó e Zé Perninha, os melhores nadadores do povoado se meteram a procurar. Nem esperaram o tal dos bombeiros chegar lá da cidade. Na beirada a turma fazia aposta. Uns diziam que eles não iriam encontrar pois o corpo devia estar debaixo da lama. Outros que era capaz de serem puxados para baixo, mesmo ninguém sabendo por quem, e que poderiam era morrer também. Mas tinha um grupo, esse menor, que acreditavam que eles iriam conseguir. E conseguiram. Não demorou nem duas horas e eles subiram agarrados nos braços do já defunto. E foi aquele chororô.

Já dentro do caixão e na sala da casa de sua mãe, estava o corpo ali inerte.

Quem já esteve em um enterro sabe que no início do velório junta um magote de gente. E enquanto o tempo vai passando o número de pessoas vai diminuindo. E é aí que as histórias sobre o defunto vão surgindo. Para isto há, sem que se escreva um roteiro, seguem-se primeiro as boas narrativas. E com Honório não foi diferente. Um grupo lembrava do quanto ele era boa gente, do quanto tinha ajudado as pessoas, do quanto era amigo. Teve quem afirmasse que homem honesto estava ali. Eu nunca vi morto ruim.

A noite chega e diminui ainda mais as pessoas. Vão ficando só os familiares e os amigos mais chegados. Então começam as piadas. Narrativas do que ele tinha feito e do que fizeram com ele. Lembraram do dia em que pegaram ele conversando com uma jumenta durante vários dias. Há quem diga que ele se afeiçoou por ela. Há quem diga que era só cuidado mesmo. Já que a bichinha vivia sozinha e ninguém cuidava dela. Até sua mãe, disse que seu filho era mesmo era comilão. Ninguém podiam deixar nada na mesa para comer depois, que Honório comia antes. Era comum as brigas dentro de casa.

Mas quando chega a madrugada, só aparecem os erros do morto. José de Zefinha lembrou que tinha uma namorada muito bonita e que um dia descobriu que Honório, “cabra safado”, tinha ficado com ela escondido quando saíram da escola. “Nunca perdoei essa desgraça por isso”. “Todos só falam da bondade dele, mas isso aí era cabra malandro. Vivia aprontando. E de tanto aprontar olha agora a situação dele”. Este é o momento em que toa a desgraceira praticada pelo falecido é desnudada em público e não tem ninguém para o defender. A não uma frase ou outra que é ouvida, “deixa isso pra lá. Ele já tá morto mesmo”.

Amanhece o dia. Muitos vão para suas casas tomar banho para retornar depois. E só os familiares continuam velando. É a hora do abandono.

Mas quando vai chegando a hora marcada para o enterro, as pessoas começam a retornar a casa e muitas que ainda não estiveram vão se chegando. Dentro da casa já não cabe mais ninguém. No terreiro tem uma pequena multidão querendo entrar para ver e rezar pela aquela alma. Todos têm uma oração de encomenda a Deus para que salve aquele pobre coitado que perdeu a vida por uma besteira. Se tivesse esperado mais um pouco, após ter comido a buchada, estaria vivo com certeza.

Aquele calor insuportável no Sertão do Nordeste vai chegando 10h da manhã. E alguém pergunta, “tu não acha que já passou da hora de enterrar?” O outro balança a cabeça afirmativamente, mas não fala nada e olha de lado desconfiado. Como alguém pode dizer isto? Ali tem um amigo que perdeu a vida.

Sai um grupo de pessoas de dentro da casa com cara de quem viu ou sentiu algo que não gostou. “Aquelas flores que colocaram no caixão já estão murchas. Não tem mais cheiro”. A outra, “já colocaram várias laranjas embaixo do caixão e não tá dando mais conta”. E alguém pergunta, “o que tá acontecendo?”. Parece até combinado, um coral não responderia tão harmonioso assim, “o defunto está fedendo!”

E o que era tristeza, que virou piada e que foi julgado por todas as suas ações aqui na terra, agora é rejeitado. Começa um boca a boca falando da situação até que chega a alguém da família. É chegado o momento da despedida. Para piorar, poucos agora se dispõem a pegar na alça do caixão. Ninguém quer estar perto porque o cheiro exalado não agrada aos narizes mais sensíveis. Irmãos, primos e tios ficam com a tarefa.

No cemitério, antes de descer a sepultura, se ouve choros estridentes e alguém falando sobre a falta e a saudade que Honório de Tia Dica vai fazer. Perto do caixão, Mariazinha, esposa de Filon, está em prantos. Seu choro é maior que o dos familiares. Seu marido estranha aquilo. Todos estranham aquilo. Eles não eram nem amigos. Nunca se soube que de amizade entre os dois.

Vai descendo o corpo, pessoas pegam com as mãos um pouco de areia e jogam na cova. Filon está calado, olhando para a esposa que ainda chora copiosamente e que seis meses após o ocorrido teve uma filha. Filon passou anos tentando ter outros filhos, mas nunca conseguiu. Ele nunca soube se era ou não estéril. Nem nós que não temos nada com a vida dos outros.

Dimas Roque 

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